Controle entre as Testemunhas de Jeová e alguns Estudantes da Bíblia



Controle entre as Testemunhas de Jeová

Fui criado como Testemunha de Jeová e passei boa parte de minha vida adulta naquela religião. Com o tempo, fui para Betel (a sede administrativa e casa publicadora no país) onde, por 8 anos, trabalhei no Departamento de Tradução. Pretendo um dia contar essa história com mais detalhes, mas hoje farei um resumo para vocês. Durante o tempo que estive lá, uma das coisas que mais me incomodavam era a pressão de ter de aceitar tudo sem questionar. O Corpo Governante (a liderança da religião) literalmente "microgerencia" as crenças das Testemunhas de Jeová. Não há o menor espaço para o pensamento bereano, para a verdadeira pesquisa bíblica, para rejeitar pessoalmente o erro.

Lembro-me de certo episódio em que eu, numa conversa com um ex-membro do Departamento de Serviço, o Sr. Jorge Fares, estávamos falando sobre a questão de ressuscitados no "Novo Mundo", isto é, no paraíso na Terra. Jorge Fares sempre foi um membro, segundo minha opinião, "radical" das Testemunhas de Jeová. Isso porque ele sempre defendia com "unhas e dentes" qualquer explicação que o Corpo Governante apresentava, por mais estapafúrdia que essa fosse. Ele não era uma má pessoa, mas tinha um zelo mal aplicado pela verdade. Enfim, na conversa eu apresentei a possibilidade de que o Corpo Governante estivesse errado ao dizerem (na época) que os "ressuscitados" na Terra não poderiam se casar. Meu argumento se baseava em Lucas 20:35, 36, que diz:

"Mas os que forem considerados dignos de tomar parte na era que há de vir e na ressurreição dos mortos não se casarão nem serão dados em casamento, e não podem mais morrer, pois são como os anjos. São filhos de Deus, visto que são filhos da ressurreição."

Apontei para o fato de que Jesus estava se referindo à ressurreição celestial, pois apenas tais 1) não podem mais morrer e 2) são filhos de Deus. Obviamente, Jorge Fares reagiu com a explicação padrão do Corpo Governante, mas devo ter deixado uma "pulga na orelha" dele, pois me disse que se algum dia a explicação mudasse, ele se lembraria de nossa conversa. Apesar dessa postura aparentemente mais aberta, ele logo me enviou artigos sobre os perigos da "apostasia" e do "pensamento independente". Curiosamente, o Corpo Governante realmente mudou sua explicação sobre casamento no paraíso terrestre, numa "Pergunta dos Leitores" de A Sentinela de 15 de agosto de 2014, pág. 29. (À propósito, "Perguntas dos Leitores" é um título enganador pois é o próprio Departamento de Redação que faz a pergunta e dá a resposta.) Fico imaginando se Fares se lembrou de mim quando a mudança foi publicada. De qualquer modo, eu já havia saído de Betel e estava me associando com os originais Estudantes da Bíblia, de onde as Testemunhas de Jeová saíram.

Controle entre muitos dos Estudantes da Bíblia “tradicionais”

Embora os Estudantes da Bíblia sejam muito mais flexíveis do que as Testemunhas de Jeová, a maioria dos Estudantes da Bíblia “tradicionais” também têm suas opiniões rígidas em certos assuntos. Novamente, uma conversa que eu tive num grupo de WhatsApp com Estudantes da Bíblia do mundo inteiro ilustra meu ponto. Os Estudantes da Bíblia “tradicionais” creem que a Grande Multidão de Apocalipse 7:9 é uma classe secundária de cristãos no céu, que não atingiram as qualidades cristãs sufucientes para ganharem o “prêmio principal” de serem  Reis e Sacerdotes com Cristo, de serem membros da Noiva ou os 144 mil. Apenas esses recebem a imortalidade, a Grande Multidão não. Certo irmão Estudante da Bíblia, o Ir. David Stein, num discurso numa convenção no Brasil, para explicar isso, chamou a classe da Grande Multidão de “bolo solado”: não se desenvolveu plenamente, mas também não queimou, de modo que ainda pode ser aproveitado. Novamente, usei Lucas 20:35, 36 para tentar provar outro ponto. Desta vez, meu argumento foi o seguinte: Se os que são ressuscitados para o céu “não podem mais morrer”, não seria isso uma clara indicação de que receberam a imortalidade? Onde estaria a Grande Multidão nesse texto? Como poderia haver um grupo de cristãos de “segunda classe” no céu que ganharam a vida eterna mas não a imortalidade? O inteiro testemunho bíblico é contra essa ideia. Não é preciso dizer que recebi muitas críticas, embora algumas fossem veladas e por meio de terceiros. Curiosamente, esses acontecimentos fortaleceram minha determinação pessoal de ser um verdadeiro cristão bereano, de ter a liberdade e de garantir a outros a mesma liberdade de avaliarem a Bíblia e de chegarem às suas próprias conclusões. Esse tem sido, à propósito, a posição dos Estudantes da Bíblia Bereanos em todos os assuntos secundários e não-salvíficos.

É importante dizer que nem todos os Estudantes da Bíblia “Tradicinais” pensam e agem assim. Muitos têm uma postura mais flexível e aceitam pontos de vista divergentes nesses assuntos periféricos. A verdade é que sistemas religiosos costumam prender as pessoas, e os Estudantes da Bíblia, quer queiram quer não, também sofrem desse mal, em graus diferentes. Opiniões, pontos de vista, rapidamente se transformam em “verdades” e em “dogmas”. E discordar passa a ser considerado quer uma falta de “conhecimento”, uma falta de fé ou mesmo “apostasia”.

Mas se sistemas religiosos estão fadados a infringirem, de uma forma ou de outra, a liberdade cristã, será que seria melhor não haver sistema algum? Estaríamos melhor como “desigrejados”? Ou será que a saída seria alguma forma de ecumenismo? Bem, a Bíblia deixa claro que precisamos nos reunir. (Heb. 10:24) Também deixa claro que o erro, as heresias, precisam ser combatidas e não toleradas ecumenicamente. Qual seria o meio-termo, então? Pretendo falar sobre isso num outro artigo, pois esse é um assunto complexo que tem me preocupado por bastante tempo.

Comentários

  1. Jorge "Bondosa atenção ao leitor" Fares, dirigia o estudo de A Sentinela como ninguém.

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  2. "Não há o menor espaço para o pensamento bereano, para a verdadeira pesquisa bíblica, para rejeitar pessoalmente o erro."
    Este trecho da matéria me chamou bastante atenção e concordo plenamente que as TJs erram feio nesse ponto.

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